terça-feira, 19 de maio de 2009

Itagyba Kuhlmann

ITAGYBA KUHLMANN é um referencial. Para quem não o conheceu (uma pena), ele foi além de poeta e criador de coelhos, onde até obteve prêmios, um exímio jornalista político, de crônicas sutis como um elefante à situações cotidianamente pitorescas do cenário político - brasileiro. Seu patrimônio intelectual não está editado. Ele nunca se propusera a tal façanha, mas suas crônicas e artigos estão depositados na internet, através do jornal FATO EXPRESSO que, aliás, o manteve quase que por si só, e pela revista, esta sim impressa, COMTEMPORÂNEA. Seu pseudônimo mais conhecido é o “Tio Marcos da Portela: - Aquele Abraço”
Itagyba participava do Coral Municipal de Embu das artes “Cantares ao Meu Povo” nome em referência a obra de Solano Trindade, sob regência de Wilma Abondanza (sua esposa) até 2008. Simples e sereno, sempre às ordens magistradas pela regente, dava o tom com sua voz grossa e veemente. Embalava os ensaios na Biblioteca Municipal Moacir F. Jordão, no centro do Embu.
Era uma diversão. Mais empolgante que as próprias apresentações. Sempre havia uma nova toada, com vocalizes e exercícios musculares a luz apagada (para não deixar ninguém envergonhado). Quando afinavam e executavam por completo uma obra como “Estrela Estrela” de Vitor Ramil ou “Cio da Terra” de Chico Buarque, uma paz assolava a sala fria e desconfortável que os abrigava. Era um esplendor. Nas apresentações Itagyba era acolhedor com seu sorriso discreto. Sempre recebia a todos como um “paizão”. Lúcido até o extremo e simples com seu ar poético, era o contraponto de Dona Wilma. Ela sempre brincalhona e extravagante com suas piadas e deixas. Professor por natureza, Itagyba sempre ilustrava sua conversa com política, cultura, jornalismo, e informática, já que ele era ‘expert’ em programação LINUX – UBUNTO.


A doença

Itagyba fumou por 45 anos. Esse vício o prejudicou, e um de seus pulmões o deixara na mão. Tempos difíceis contam, onde pensaram que ele não agüentaria. “BRAÇO DE PEDRA”: em tupi, "ita" é "pedra" e "gyba", "braço", assim o caracterizaram após esse episódio, pois o significado indígena do seu nome se fez valer neste momento. Parou de fumar e começou a buscar uma vida mais saudável: eles não usam forno microondas por precaução. Contudo, o destino ou acaso o levou novamente ao leito do hospital. Devido a sua debilidade física um tumor cresceria em seu cérebro. Os médicos indicaram que pelo nível de ramificações tal tumor poderia estar alojado de longa data. Essa ninguém esperava, já que por sua lucidez e inteligência algo como isso era impensável.

A descoberta

A partir de meados de 2008, alguns episódios na Prefeitura de Embu, onde prestou serviços até seus últimos dias o deixaram profundamente descontente e um enorme sentimento de impotência se apoderou dele. O encaminhamento da política local pode ter sido seu calvário. Nesse ponto já não tinha mais força e sempre tentava acalmara todos, dizendo que só precisava descansar em sua cama. Sua companheira Wilma, tentou de tudo para animá-lo. Em vão relembrava situações das quais passaram, para que pelo passado pudesse convencê-lo a lutar pelo presente.

O dia da certeza

A situação piorou. Logo já não conseguia forma uma frase, sempre lhe faltará a ultima palavra, muitas vezes o substantivo. Seu lado direito começou a não mais responder a seus estímulos. Com muito sacrifício segurava uma colher para tomar uma sopa, pois só este alimento conseguiria ingerir. Foi um mês muito difícil, deslocou-se varias vezes entre o pronto socorro e o Hospital para a realização de inúmeros exames antes de dirigir-se definitivamente ao Hospital Geral do Pirajussara, seu leito de morte. Na semana que dera seu internamento, veio a noticia. Um tumor. Seus familiares tentavam consolar Wilma que em prantos que não acreditava na real situação. Logo em seguida soube-se que o que se pensava ter sido derrame na verdade fora uma hemorragia intra-craniana muito grande motivada pelo tumor, essa responsável pela paralisação do lado direito.
Seus filhos revezaram-se para estar presente 24h no hospital, acompanhando-o e dando força na sua improvável recuperação. Foi quando no dia 04 de abril de 2009 veio a falecer, contraindo uma pneumonia hospitalar que complicara seu quadro já humanamente insuportável.

Suas lembranças trazem dor a seus familiares e amigos próximos, pois é difícil se separar de algo que faz tão bem. Contudo, fica a certeza que à muitos não se diz o mesmo. Ele fará falta!

ITAGYBA KUHLMANN, como dito no texto: O "Braço de Pedra" de Embu das Artes, por ESTÊVÃO BERTONI para a FOLHA (obituário), deixa sete filhos, 5 netos, noras, uma amada esposa.

Por Alexandre Oliveira

Dígitos do desejo

Quando o teclado e o monitor substituem o contato sexual

O sexo foi e, muito provável, sempre será motivo de curiosidade, excitação, êxtase , euforia e outros tantos adjetivos. Claro que o grau de cada um deles varia de acordo com a idade, sexo, meio etc.
Em todos os períodos históricos o sexo teve suas influências e particularidades, seja na idade da pedra, com uma certa violência e submissão, nas orgias dos grandes palácios medievais, ou até mesmo a partir das fotonovelas, na era dos folhetins e revistas românticas.
Com toda essa evolução e diversificação sexual, os meios sempre tiveram seu papel dentro dessas mudanças. Não há como negarmos uma grande modificação depois da chegada da internet. Impossível não participar dessa revolução, mesmo aqueles mais resistentes e conservadores. De alguma forma, suas vidas foram afetadas direta ou indiretamente.
Muitos se questionam se isso é bom ou ruim. Independente da resposta, o fato é que não somos mais os mesmos, ou talvez, sejamos sim os mesmos, só que transformados. Uns mais, outros, nem tanto.
E o que dizer sobre o sexo depois da entrada da internet? Mudou? É inegável uma grande mudança comportamental dentro desse universo tão complexo. Com a chegada da internet e das salas de bate-papo, o sexo ganhou outro aliado. Cada vez mais aumenta o número de pessoas a procura de relacionamentos através dos meio virtuais. As salas de bate-papo vivem lotadas. Basta entrar num desses provedores com chats sobre sexo para conferir. São inúmeras as pessoas em busca de uma relação virtual.
Alguns usam este meio como uma espécie de liberação dos desejos mais secretos e que não conseguiriam fazer no mundo real. Outros estão à procura apenas de uma conversa um pouco mais picante, que no fundo não têm coragem de fazer distante da tela. Medo, pudor, repressão religiosa. São vários os motivos.
Há também aqueles que sentem um imenso prazer em fazer sexo virtual. Como isso é possível? Simples, tem a maneira textual, em que duas pessoas estão conectadas e, numa conversa, começam a digitar frases excitantes, a se liberarem sexualmente através de fantasias, fetiches, palavras picantes, obscenidades. Neste caso o imaginário é o grande aliado ao que é escrito. O indivíduo começa a imaginar como é o outro, como ele se comporta, como o tocaria, o beijaria, enfim, como seria uma relação sexual com quem está do outro lado. Nem sempre este tipo de relação sexual termina em orgasmo. Muitas vezes a pessoa está apenas a fim de se excitar, se sentir desejada, bem quista, ou de despertar o prazer em alguém. Há também os que só querem se divertir.
Como eles não estão se vendo, nunca poderão garantir que o seu parceiro virtual chegou ao ápice, pois este pode muito bem estar mentindo. Mas tal fator não tem grande relevância neste tipo de relacionamento. O importante é se sentir bem e realizado.
Aliada com a possibilidade de conversar textualmente com pessoas de qualquer lugar do mundo, desconhecidas ou não, a webcam se torna elemento fundamental na relação virtual. Ela proporciona a visualização do outro. Neste jogo, a beleza e os gostos pessoais contam mais do que simplesmente trocar mensagens de texto.
Os envolvidos agora podem se excitar visualmente. Como? Mostrando seus órgãos genitais, se masturbando, se tocando, utilizando acessórios como vibradores, roupas sensuais, óleos... entre outros. Elementos estes que ajudam nesta festa sexual, onde algumas máscaras caem para dar lugar a outras.
Obviamente, uma das muitas vantagens de se relacionar virtualmente é não há absolutamente nenhum risco de contrair uma doença sexualmente transmissível, por não haver nenhuma transferência de fluidos corporais.

O sexo e o eu na webcam

Com a chegada da internet e a possibilidade de conexão com outros indivíduos, estando eles em qualquer parte do mundo, o sexo ganhou um novo meio tanto para encontros ocasionais somente para satisfazer o corpo - sem compromisso, e pela praticidade provável das partes nunca mais se verem - ou simplesmente pela prática “solitária-virtual”.
Nestas práticas cibernéticas, o indivíduo se sente liberto de seus pudores e mais a vontade para falar e fazer coisas que não teria coragem de fazer em outros ambientes. Talvez, possa-se dizer que ele expõe o seu verdadeiro eu, ou simplesmente ou eu que não lhe é habitual – pelo menos socialmente.
Diante de uma tela de computador, parece que o indivíduo se liberta de conceitos religiosos e familiares relacionados ao sexo. Na frente dela, se despe de pudores, moralismos e deixa aflorar seus desejos mais íntimos e secretos. O fato de estar se relacionando pela internet o faz ter a impressão de que aquelas pessoas também estão despidas de hipocrisias sociais, igualando-os, e também pelo fato de que não terão nenhum laço social ou afetivo – embora possa haver exceção - num jogo de criação de eus
A webcam possibilita ao indivíduo criar um cano de escape para a solidão. É como se a webcam se transformasse numa companheira fiel do sujeito trazendo companhias diversas e descartáveis num frenético e constante reality-show. Muitas vezes o indivíduo se torna escravo deste universo vicioso e, porque não dizer, nocivo. É a necessidade de ver e de ser visto. A câmera ligada somente não basta, ele tem a necessidade de saber que está sendo visto por alguém e, de preferência, que o número de espectadores seja sempre o maior possível, para que se sinta real, existente. É a necessidade de existir.
Por Everson Bertucci

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Manual prático de sobrevivência num boteco de quinta durante um ataque de fome no meio do nada

1° o teste do balcão - a fome é grande, a localidade não oferece opções, o jeito é entrar no único 'estabelecimento' que oferece 'coisas' de comer. Assim que entrar, de modo algum sente-se a mesa (se houver), antes, vá ao balcão para um rápido teste: encoste seu antebraço balcão e conte até 3. Se sua pele não aderir à gordura acumulada do balcão, fique parcialmente feliz, sinal de que ele foi limpo há pelo menos 6 meses. Caso sua pele fique grudada, mas se solte depois um leve puxãozinho, é um sinal de que ele foi limpo há 1 ou 2 anos atrás, hora de decidir se sua fome é maior do que o nojo dessa informação. No entanto, se seu antebraço ficar completamente grudado no balcão e não se soltar nem com a ajuda do balconista, peça um pouco de água morna, jogue entre a pele e o balcão, assim que a gordura amolecer, recolha seu bracinho querido e saia o mais rápido possível do local, sem olhar para trás;

2° copo descartável - na hipótese de ter permanecido no local, peça algo para beber, talvez sua fome seja apenas sede! Comece pedindo uma água. Peça uma cujo copo ou garrafa venha lacrado, vedado, isolado da atmosfera do boteco. Caso o balconista diga que ele não 'trabalha' com esse tipo de mercadoria, pergunte qual seria a procedência da água vendida. Se ele disser que a procedência é uma bica que fica logo ali, no mínimo peça que ele use um copo descartável! Mas pense na possibilidade de pedir que ele abra um pacote novo, nem que para isso você tenha que pagar por todo o pacote... afinal, existe a possibilidade do digníssimo balconista ser do tipo que 'reutiliza' copos descartáveis!

3° talheres descartáveis - você é a pessoa mais corajosa e faminta do mundo, o copinho d'água só abriu ainda mais seu apetite, o único jeito de resolver o problema é comer! Prefira coisas que podem ser comidas com as mãos, como lanche, esfirra, pastel. No caso desse último, o lado bom é que o óleo quente pode ter matado todas as bactérias, mas o lado ruim é que o óleo super-hiper-mega-ultra-saturado completando 5 anos no tacho pode matar você. Se o balconista disser que não frita, não assa e não prepara nada na hora, repense. Pergunte pelo PF, com muita, muita, muita sorte o 'maitrê' irá dizer que fica pronto em 15 minutos... isso será um ótimo sinal de que está sendo preparado no mesmo dia! Caso sua fome já esteja grande a ponto salivar só de pensar no 'cheirinho' do 'bife' sendo frito, aceite um conselho: peça talheres de plástico. Do contrário, seu bife pode ganhar sabor de dobradinha... que estava no cardápio de ontem!

4° ovo cozido - o bom e velho ovo, herói no combate a tantos momentos de fome, ele pode salvar você mais uma vez! Pense bem: ele tem embalagem própria e lacrada, pode ser comido sem talheres, é rica fonte de proteínas e vitaminas, não precisando de muito para matar (ainda que temporariamente) sua fome, não é frito nem assado, é cozido! Mas é preciso que seu poder de persuasão seja forte, afinal, você terá de convencer o balconista de que faz questão de que seu ovinho seja cozido na hora e por pelo menos uma hora (pra garantir a eliminação de qualquer tipo de bactérias). Diga que é uma receita da sua mãe! Caso consiga, vá fundo!

5° o recurso final - o balconista se nega a cozer um ovinho, não serve pf, o único pastel que tem é de ontem, só tem copos de vidro, sua pressão caiu, sua fome já está embaçando sua visão. O que fazer?! De repente, não mais do que de rente, você avista um pacote vermelho, escondido atrás de algumas garrafas de 51, Velho Barreiro e Pitu... sim, sim! É um pacote de Fandangos de presunto!!! Peça-o! Cheque se está na validade, sacuda o pó da embalagem, pague, nem que custe 5 vezes mais que o normal, e saia correndo! Com certeza um pacote de Fandangos ( que rende mais do que qualquer outro salgadinho!) vai conseguir aplacar sua fome, de quebra, vai resolver seu problema de súbita queda de pressão arterial já que possui níveis ressuscitadores de sódio!

Por: Fabi Catarse*
Originalmente publicado em:
http://www.claraemneve.blogspot.com/
Contato:
fabicatarse@yahoo.com.br

*Fabi Catarse é cronista de pequenas bobagens da vida, lingüista e pensa que é chef, mas só da cozinha dela. Escreve semanalmente no blog Clara em Neve sempre pensando em comida.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Bichos no metrô


O celular despertou muito cedo.
-- bosta de vida!
Acordei. Liguei o piloto automático, desliguei o despertador, levantei, me troquei, escovei os dentes, comi qualquer coisa, peguei minha mochila-pen-drive-carteira-canetas-marmita-água-escova-de-dente-colírio-óculos-máquina-fotográfica-revistas-biscoito e fui trabalhar.
No trabalho, a rotina mortificante de sempre. Fim do dia. Felicidade, enfim. Durmo no trajeto até a faculdade. Fim da aula. Sigo até o metrô. O piloto automático sempre ligado. Pessoas, prédios, carros. Ouve-se muito barulho. No fim é tanta coisa que tenho a impressão, à noite, que não vi nada durante o dia.
Desço as escadas da estação Ana Rosa, passo pela catraca e me direciono à plataforma. Estou cansado. O metrô se aproxima, pára, abre as portas e num átimo de segundo sou arremessado para dentro. Foi tão rápido que só me dou conta que estou no vagão quando sinto meu rosto grudado no vidro de uma das portas.
Após um certo esforço, consigo virar meu rosto para trás para ver o que acontecia e para minha surpresa e espanto não havia pessoas no vagão. Apenas bichos. Pareciam selvagens. Vacas, cavalos, éguas, galinhas, veados, muitos burros, um elefante e uma girafa. Eram grunhidos, relinches, mugidos e outros tantos sons misturados que mal podia distinguir seus emissores.
Não sabia o que fazer, nem como reagir. Preferi ficar imóvel, esperando pacientemente pela morte. Percebo que há um entre eles, que foram se dividindo em núcleos. As galinhas cacarejavam entre si, os burros se reuniram num canto, a girafa e o elefante se juntaram nas poltronas cinzas, as vacas mugiam demonstrando uma certa felicidade e os veados ficaram sentados e quietos numa posição muito reservada.
Estava começando a ficar tranqüilo quando uma égua deu uma virada e sua crina veio de encontro direto com o meu rosto. Aquilo queimou minha face. Senti uma vontade de xingar ou mesmo de esmurrar, mas fiquei intimidado pela possibilidade de levar um coice fulminante do cavalo que a acompanhava.
Ao parar na estação São Joaquim a situação piorou. Mais bichos foram empurrados para dentro do vagão e aquilo virou uma lata de sardinha. Fiquei prensado entre um burro, um cavalo e uma égua. Os pêlos do cavalo, que eram de uma espessura grosseira e de um cheiro insuportável, começaram a me incomodar - embora não desse para saber se o mal cheiro era do burro ou do cavalo. Da égua não digo, pois parecia bem limpa e muito bem cuidada.
Tudo estava indo bem até que umas galinhas, distraídas, pisaram no joanete da girafa, que ficou irritadíssima. Começaram uma discussão ofensiva. Identificava-se apenas os gritos. As outras galinhas entraram na discussão. O elefante tentou apaziguar, mas foi totalmente ofendido por uma das galinhas, surgindo então uma nova discussão. Travaram uma briga ferrenha até que uma galinha foi arremessada na porta. Viu-se apenas seu deslizar até o chão, desmaiada. Os cavalos acharam aquilo de uma selvageria sem fim e se intrometeram na briga.
-- vaca!
-- galinha!
-- veado!
-- cavalo!
-- égua!
-- girafa!
-- elefante!

Para a minha sorte, ao chegar na estação da Sé as portas do lado onde eu me encontrava foram as que se abriram. Saí apressado, tentando fugir daquela selvageria. Ao olhar para trás, noto que todos aqueles bichos saíam acelerados do vagão. O elefante enfiou o pé entre o vagão e a plataforma e esparramado no chão foi pisoteado. Por um momento senti vontade de ajudá-lo, mas fui impedido pelo arrastão de bichos vindo em minha direção. Corri até a saída e finalmente passei pela catraca. Estava a salvo, pensei, eles não conseguirão atravessar. Fui para um canto e, tremendo, fiquei olhando.
Para meu desespero, todos eles também começaram a atravessar a catraca. Fechei os olhos e aproveitei para pedir, resumidamente, perdão a Deus por todos os meus pecados. “Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres”... Começou a demorar e nada de um ataque. Nenhuma agressão, nenhum coice, nada. Resolvi abrir os olhos e ver o que estava acontecendo. Surpresa: ao atravessar a catraca, todos mudavam de comportamento. O jeito, os gestos. Nenhum sinal de agressividade. Passavam direto por mim e seguiam em frente. Pareciam não ser mais os mesmos. Cada um seguindo distintos caminhos. Uns apressados, outros, nem tanto. Não pude evitar as interrogações.
Saí correndo da estação à procura de um espelho.


Por Everson Bertucci
Ilustraçao: Flávio Leal

domingo, 10 de maio de 2009

Em que posso ajudar...?

Em um minuto é impossível se fazer muitas coisas, há quem diga o contrário (nós, os tele-operadores). Mas para um profissional que trabalha em Call Center a palavra “não” é pecado e a religião adotada nas empresas desse ramo ortodoxas puritanas é viril. O atual modelo brasileiro instituído por lei adota que, o atendimento por meio do telefone tem que ser o mais rápido possível e de qualidade (não esqueçamos), exigindo assim que empresas que ofertam esse serviço se adequem para tal façanha. Sobrou para o operador. Stress, depressão e baixa estima rola solto nas centrais de atendimento.
Dias atrás soltei um “caralho” em voz alta diante da tela do computador, socando a mesa em seguida. Nunca havia me exaltado a tal ponto. Meu algoz, denominada supervisora, me fuzilou com seu olhar austero. Sempre fui um cara calmo, calado em meu canto. De pouco relacionamento. Nunca gostei de fofocas e conversar era o mesmo que saltar de pára-quedas (Pula... Pula!). Tinha que gostar muito de mim para encarar. Sim, após ter entrado nesse ramo mudei muito. Almoçar em 20 minutos, mais 10 para um lanche – senhora doutrina (Gisele buchos da vida adorariam. Mandem currículos!). Ontem bati meu Recorde: defecar – escovar os dentes – e tomar banho em menos de meia hora (calma, passei desodorante ta...!). Deplorável. Muitos que aceitam esse ofício desistem antes de completar o ciclo de um ano e meio (faça o teste: diga seu nome 90 vezes ao dia, durante esse período). Quem aguenta!!!
Ontem atendi uma senhora. Ela me solicitou seu saldo bancário. A cada nova solicitação vinha precedido o mesmo saldo, que já o dissera. Na quinta vez que ela solicitou o saldo, enlouqueci! Mesmo supondo que ela não ouvira o que eu já repetira me esgoelando, Meu Deus!... Comecei a tratá-la da mesma forma (as pessoas não gostam quando nós as tratamos da mesma forma) Brasileiro é mal acostumado! Como diria meu pai (ele vivia repetindo, sobre a louça que não lavávamos): “Só venha a nós, e o vosso Reino?”
Hoje atendo todo o Brasil, infelizmente nem todo o Brasil nos entende (ou seria atende?). Mas voltando à lei, já era hora. Existem empresas que, como a que eu trabalho, tentam se valer de qualquer brecha para se beneficiar. Contudo, como eu disse: pobre do cidadão que necessitado aceitou essa proposta “indecente” de emprego. Pois a lei visa a agilidade e qualidade do atendimento, mas se esquece de quem atende (qual seu nome mesmo?). Assédio moral, metas surreais (é mais fácil ir à lua do que vender um produto bancário), campanhas promocionais vexatórias (quase me fizeram usar peruca de palhaço um dia). Rola de tudo numa “P.A” (ponto de aborrecimento). É! Eu mudei. Ando sem inspiração no momento, por isso estou a escrever esse texto. Já estou nessa vida há mais de um ano e meio. Nem na estatística saio mais. Uma vitória? ... Entre mortos e feridos, UNIBANCO e ITAU se “fundiram”... com todo mundo. Mas não chorem, ainda não contei minhas aventuras enfrentadas dia a dia no trajeto casa- trabalho – faculdade. Vocês ainda não viram nada. Ah, e sobre a tiazinha lá..., é ela me deixou falando. (tu tu tu...)

Por Alexandre Oliveira

sábado, 9 de maio de 2009

A Balada que abala

A tecnologia e os avanços dos aparelhos celulares vêm causando transtornos aos usuários do transporte público. Pelo menos a mim, o incômodo é diário e constante.
Parece que algumas pessoas resolveram fazer dos trens e ônibus da cidade uma verdadeira “balada do transporte”.
São ritmos conhecidos e variados, sertanejo, funk, forró, axé, rap, se escuta de tudo um pouco e um pouco de tudo.
Pior do que a qualidade musical expressa pelos usuários, é a sua determinação de escutar tudo ao mesmo tempo. Chega até mesmo parecer uma verdadeira batalha musical.
E neste caso, quem pode mais, chora menos, pois quem tem o celular com maior potência de som ganha a batalha. E quem perde? Adivinha? São as outras pessoas – me incluo neste caso - que se encolhem em seus lugares e tentam inutilmente mais alguns minutos de sono até chegar ao ponto final.
Imagine uma balada que toque funk com rap, forró com axé, ou tudo ao mesmo tempo. Imaginou? Essa é a minha rotina.
Chego a pensar que os celulares perderam sua maior importância. Pra que falar com alguém, se podemos fazer todos nos escutarem.
Pra que serve o celular mesmo? Já nem sei mais, são tantas as funções deste pequeno aparelho, que hoje ele se confunde com outros. Acho até que já vem com canivete suíço. Se não vem, é uma opção.
Neste momento acredito que sua principal utilidade é ser um aparelho para expressar a ideologia ou gosto pessoal de música. Você já reconhece as pessoas pelo que ela escuta. Olha lá o funkeiro, lá vem o do forró, olha o pagodeiro chegando...
Não, eu não sou um chato que não gosta de música, muito pelo contrário, gosto sim e muito. Tudo bem, não gosto dos ritmos que citei acima, porém, mesmo que gostasse concordaria que 6 horas da manhã não é o melhor horário para escutá-las, e muito menos às 18, horário que nos encontramos, cansados, vindo de um dia estressante de trabalho, aborrecidos com o aperto e tendo que escutar:
“São as cachorras, hu, hu, hu, hu, as preparadas, hu, hu, hu, hu, as popozudas hu, hu, hu, hu, o baile todo...”, ou então, “Quem vai querer a minha periquita, a minha periquita”.
É, meu caro, vivemos em um país livre, o que é uma verdade, concordo e respeito a diversidade cultural, mas e o respeito que devemos ter com as outras pessoas que não querem ouvir este tipo de música?
Tenho até uma solução para isso, e pasmem não vai ter custo algum pra ninguém. É ele, minha gente, o bom e velho fone de ouvido, acessório atualmente obrigatório e gratuito para quem compra celulares que tenha rádios e mp3.
Bem, mas há algo intrigante em tudo isso, se o fone é gratuito, onde eles estão? Será que todos estão quebrados? Ou é melhor mesmo se equilibrar no balanço da condução com uma mão no ferro de segurança e a outra segurando o aparelho do transtorno?
Já pensei até em montar uma campanha dentro dos transportes. Seria mais ou menos assim: “se você tem educação, coloque o fonão” ou então “para não importunar quem vai trabalhar, desligue o seu celular”.
Tudo bem, tudo bem, talvez eu não seja muito bom em jargões, mas, por favor, eu peço com educação, você usuário da condução, respeite o cidadão. Este ficou bom, hein!?

Por Flávio Rocha
Ilustraçao: Flávio Leal